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Licenciaturas EaD têm solução por Ronaldo Mota.10/06/2024arquivo sem legenda ou nome
Recentemente, o Ministério da Educação aprovou as novas diretrizes do Conselho Nacional de Educação que determinam que cursos de formação de professores (licenciaturas e pedagogia) tenham um limite superior de 50% a distância.

O parecer define que o estágio curricular obrigatório, bem como as atividades de extensão e pelo menos 880 horas de conteúdos específicos das licenciaturas, precisam ser feitos presencialmente. Atualmente, os alunos de cursos a distância estão obrigados a realizar o estágio presencialmente, mas as demais atividades podem ser a distância.

A Associação Brasileira de Educação a Distância alertou que essa mudança provocará uma redução drástica no número de professores formados nos próximos anos, podendo, na prática, impedir que sejam ofertados cursos de licenciatura na modalidade a distância.

O tema é grave porque, atualmente, mais de dois terços dos concluintes são a distância. Em termos percentuais, a participação EaD mais do que dobrou em uma década, impulsionada pela rede privada. Por outro lado, é fato preocupante que a qualidade dos cursos de licenciatura na modalidade EaD venha caindo ao longo dos últimos anos. De quinze cursos analisados, nove tiveram redução na nota bruta geral média do Enade.

Embora, em média, os resultados dos formandos presenciais sejam melhores do que a distância, a diferença, em geral, não é significativa. Se levarmos em conta que o EaD é adotado majoritariamente no setor privado e o presencial é predominantemente público, não resta claro se essa pequena diferença decorre, principalmente, das modalidades ou do fato que, em geral, os formandos públicos apresentam ligeira vantagem comparados àqueles do setor privado.   

Enfim, temos sim um problema a ser enfrentado quanto à formação de professores, seja EaD ou presencial. Na modalidade EaD, provavelmente, uma das maiores deficiências na formação esteja na excessiva liberalidade no acompanhamento, por parte das instituições, do estágio curricular obrigatório. Ainda que, em tese, ele seja presencial e de 400 horas, na prática, parece existir um relativo descontrole, gerando brechas a práticas indevidas.

Dados do questionário Enade mostram que a maioria dos concluintes dos cursos de licenciaturas nos anos recentes não realizou adequadamente o mínimo de horas exigido para o estágio. Temos evidenciado um problema grave no devido acompanhamento da qualidade dessa que é, sem sombra de dúvida, a mais importante etapa do processo formativo do futuro docente. 
Criar mecanismos que permitam um rigoroso acompanhamento do estágio curricular obrigatório nas licenciaturas EaD torna-se imprescindível. A boa notícia é que há soluções, restando ser implementadas. O Laboratório de Segurança Digital (LABSEC) da Universidade Federal de Santa Catarina está apto a criar, a curto prazo, mecanismos de controle muito efetivos do estágio. Trata-se do mesmo laboratório que criou as Receitas Digitais para uso do Conselho Federal de Medicina e que contribuiu para a expansão do sistema de Diploma Digital, além de dar suporte ao Programa Pé-de-Meia.

Bastaria criar um campo “Estágio Curricular Obrigatório”, associado ao CPF de cada aluno, no qual as instituições que ofertam os cursos seriam obrigadas a lançar o CPF do mentor/supervisor e o CNPJ da escola no qual o estágio está sendo realizado. Ao aluno caberia preencher, em tempo real, os dados equivalentes ao Diário de Classe/Estágio Docente. Caberia ao responsável designado pela coordenação do curso acompanhar e aprovar, passo a passo, e ao MEC auditar, etapa esta que poderia ser feita por amostragem.

A interação direta, via plataforma, do educador com o educando, essencial para ampliar o nível de engajamento do aluno, está se tornando, gradativamente, menos estimulada, fruto, principalmente, da preocupação em cortar custos docentes. Da mesma, há soluções tecnológicas simples capazes de aferir, para efeito avaliativo dos cursos, o quanto os ambientes de aprendizagem adotados pelas instituições educacionais exploram, ou desprezam, esse predicado inerente à modalidade.

Soluções como essas, ao lado de várias outras, podem elevar a qualidade da formação dos professores na modalidade EaD. Lembro que igualmente preocupante é formarmos professores na modalidade presencial sem termos qualquer garantia de domínio mínimo de ambientes virtuais de aprendizagem. Saber lidar com plataformas será um requisito imprescindível na vida do futuro profissional. Portanto, há correções igualmente severas a serem incorporadas no presencial.
Resta claro que, em ambas as modalidades, o uso adequado de tecnologias digitais pode representar um diferencial positivo na formação de nossos futuros professores. O desprezo à educação digital promove o atraso no uso de ferramentas que o resto do mundo tem adotado com naturalidade e com evidente sucesso.
 
Ronaldo Mota 

*Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria.
 
Para ter acesso à carta clique aqui.
 
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