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Como a tecnologia está transformando a educação na Amazônia11/05/2009

Ainda está escuro quando Alessandro Nascimento calça os chinelos e escova os dentes. Com um caderno na mão, duas bananas na bolsa e o sonho de se tornar astrônomo, o menino de 9 anos enfrenta duas horas de caminhada até chegar à escola. Alessandro dorme na escola a semana toda. À noite, estende a rede no refeitório. "Assim não preciso caminhar tudo de novo. E aproveito para ver as estrelas", diz o pequeno morador do Seringal São Pedro, no Acre, extremo oeste da Amazônia. Alessandro tem como ídolo o astrofísico Marcelo Gleiser.

Mais da metade dos 5 milhões de crianças que vivem na floresta não termina o ensino fundamental, de acordo com dados do governo do Amazonas. "É tarefa para caboclo iluminado", dizia o ex-governador do Acre Jorge Viana. As raríssimas formaturas na floresta são comemoradas com fogos de artifício, fogueira, quadrilha e até padre. Os alunos que terminam o ciclo básico (9ª série) aproveitam até para se casar na colação de grau. "A façanha equivale a um título de doutor", diz o professor Lissandro Augusto, do Seringal São Pedro. Os alunos têm de vencer não só a distância, mas também a fome e a falta de recursos. Como não deixar se perder o sonho de Alessandro?

Tanto o governo federal quanto as entidades não governamentais já tentaram impulsionar o ensino na floresta. Na primeira tentativa, na década de 80, foi montada uma grande operação para construir escolas em locais isolados. Nos anos 90, o governo organizou caravanas para transportar os alunos de sua casa até os centros educacionais mais próximos. Nenhuma das tentativas vingou. "A solução não estava em vencer a distância fisicamente, mas em encurtá-la com tecnologia", diz Marcos Resende Vieira, diretor da Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed).

Foi assim que há dez anos a educação na floresta entrou em um processo lento – mas progressivo – de virtualização. Os primeiros resultados aparecem agora: a internet, os materiais em DVD e as videoconferências inverteram os números trágicos. A evasão escolar diminuiu 30%, os professores passaram a frequentar cursos on-line e o desempenho dos alunos melhorou 35%. Agora existe ensino médio na floresta.

A primeira grande experiência chegou com o Telecurso, que foi adotado como política do Estado no Acre. Os professores têm apoio de materiais extras em DVD e contato permanente com especialistas de todas as áreas do conhecimento. "A nota das crianças aumentou 1,5 ponto. E a distorção idade-série, que atingia 52% das crianças, diminuiu para 30% nas salas do Telecurso", afirma Vilma Guimarães, gerente de Educação da Fundação Roberto Marinho.

A segunda experiência acontece na fronteira da Amazônia brasileira com outros países. O Exército abriu seus 38 pelotões de fronteira para educar crianças a partir do 6º ano. "O objetivo era atender os filhos de militares em missões temporárias. Mas filhos de civis que moram na região também acabaram nos procurando", diz o major Robson Santos Silva, membro da Abed. As crianças recebem material didático, têm o apoio de um tutor e acesso a um canal exclusivo na internet. "Quando os pais voltam para a cidade de origem, as crianças estão preparadas para prestar o vestibular." A iniciativa beneficiou 1.600 alunos.

O terceiro grande projeto chegou recentemente, com a Escola Técnica Aberta do Brasil (Etec), uma iniciativa do Ministério da Educação. A escola oferece ensino fundamental e colegial técnico a distância a quem mora longe das grandes cidades. São mais de cem salas de aula na floresta e potencial para atender 30 mil alunos. As aulas a distância funcionam dentro de escolas que já existem, com professores e videoconferências. "Com pouco investimento, esse projeto deu grandes resultados", afirma Helio Chavez, do Ministério da Educação.


Fonte: Revista Época
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