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Educação a Distância uma ferramenta para desenvolver a Gestão do Voluntariado nas Organizações do Terceiro Setor

José Américo Sampaio - Zelito
zelito@uol.com.br

Na escolha de uma modalidade de trabalho pedagógico deve-se considerar a intencionalidade do ato educativo, as características e singularidades dos aprendizes, os recursos existentes ou que podem ser providenciados e outros fatores que possam interferir no trabalho, restringindo-o ou abrindo-lhe novas possibilidades.

Resumo

Este estudo apresenta o potencial da EaD , enquanto instrumento de difusão de conhecimento aplicado à importância de profissionalizar as Organizações Sociais no Brasil na busca de sua sustentabilidade na gestão do voluntário e na relevância do trabalho do terceiro setor no contexto histórico atual e na sua contribuição para o desenvolvimento sustentável.

Por meio da visão construtivista, será apresentado o design educacional e as estratégias usadas para guiar o aprendiz na construção do seu conhecimento, resultado da trajetória da parceria desenvolvida durante dois anos, entre o Centro de Voluntariado de São Paulo e a Universidade Anhembi Morumbi na criação de um curso on-line: Gerenciamento de voluntários.

Palavras Chaves

Desenvolvimento Sustentável, voluntariado, design educacional.

Desenvolvimento sustentável

O conceito de desenvolvimento sustentável vem cada vês mais se tornando a opção pela qual poderemos atingir um mundo melhor e mais justo, sem a necessidade de destruí-lo neste processo. Na busca desta nova relação entre o progresso a qualquer custo e desenvolver-se de uma forma sustentável, não podemos deixar de relevar a importância do Terceiro Setor.

O Terceiro Setor, ou, organizações sem fins lucrativos, vem assumindo, a partir de 1990 um papel relevante para a construção de um mundo mais justo. Assistimos nestes últimos anos uma grande mudança com relação às questões sociais, mesmo dentro das características do neoliberalismo que impera na ordem econômica até hoje. O papel das organizações sociais vem se desenvolvendo, tanto no aspecto relacionado à sua atuação na sociedade como também pela necessidade de se desenvolver nas questões de sua gestão.

Nesse contexto, no ano de 2001 foi proclamado pela Assembléia Geral das Nações Unidas "Ano Internacional dos Voluntários", que teve como principais objetivos; reconhecer , promover e facilitar o voluntariado e estimular o intercâmbio de conhecimentos e experiências entre os voluntários de todo o mundo, dada a sua importância nas estruturas das organizações sociais.

O Brasil teve uma participação relevante, mobilizando muitas pessoas, entidades e o governo. Os Centros de Voluntariados que se espalharam por todo o Brasil. Em São Paulo o Centro de Voluntariado, que já atuava desde 1997, desenvolvendo cursos de capacitação para as pessoas que desejassem participar de programas de voluntariado, deve sua demanda aumentada.

Como conseqüência da capacitação de inúmeras pessoas para este trabalho, fez surgir uma nova questão; as organizações não estavam preparadas para receberem esses voluntários, não tinham estruturado um programa de gerenciamento de voluntários.

Baseado nesta necessidade, o Centro de Voluntariado de São Paulo desenvolveu o curso Gerenciamento de Voluntários, com objetivo de preparar as organizações para planejar e gerenciar com qualidade um programa de voluntariado.

Ao mesmo tempo foi lançado o livro, Gerenciamento de Voluntários, editado pelo Centro de Voluntariado de São Paulo (2002), que apresenta o conteúdo teórico e ferramentas utilizadas no curso presencial, com objetivo de disseminar este conhecimento entre as organizações.

É neste momento que o desafio é lançado; como poderemos atender o maior número de organizações sociais com eficiência, sem perder a dinâmica do curso presencial?

O desafio de transformar o curso presencial em on-line.

Em 2001 a Universidade Anhembi Morumbi já desenvolvia cursos on-line e já havia criado o Departamento de Educação a Distância, com objetivo de organizar, estimular e capacitar os professores nesta nova tecnologia.

Com os desdobramentos das ações decorrentes do Ano do Voluntário, a Universidade se aproximou do Centro de Voluntariado de São Paulo, participando dos cursos presenciais. Participando de reuniões, a Universidade Anhembi, diante do desafio lançado pelo Centro, propôs uma parceria. Da parte da Universidade, estaria disponibilizando seu know-how e estrutura em educação à distância e o Centro de Voluntariado participaria com seu conhecimento e experiência.

Concretizada a parceria, foi criado um grupo de trabalho com objetivo de transformar o curso presencial em on-line.

A primeira etapa dos trabalhos do grupo, foi à conscientização do que seria um curso a distância, suas possibilidades, exemplos e capacitar o grupo nesta nova tecnologia. Da mesma forma, o grupo deveria conhecer como estava sendo ministrado o curso presencialmente, para não perder suas características fundamentais.

Este foi um momento importante no processo, precisávamos unir o “espírito” do curso à nova tecnologia. Muitos paradigmas tiveram que ser quebrados, os conceitos da tecnologia, fria, distante e impessoal, que são, num primeiro momento, as barreiras da nova tecnologia no desenvolvimento de um curso para capacitar organizações que têm como missão melhorar as condições de bem estar da sociedade.

O segundo momento foi o trabalho específico com o conteúdo do curso. Este desenvolvido para o curso presencial, assim como as ferramentas de gestão, deveriam estar contidas no curso on-line, mas precisavam estar adaptados à nova tecnologia.

O conteúdo foi formulado a partir da experiência do CVSP em atividades presenciais, em Organizações Sociais.

Conteúdo do curso

O curso está organizado de forma a cobrir as principais etapas para a organização do programa de voluntários em sua instituição:

Módulo 1

Pré-Requisitos para Implementação de um Programa de voluntariado
Conhecer o voluntário atual
Retratar a Organização Social
Destacar um coordenador de voluntários
Preparar a organização social

Módulo 2

Diagnóstico
Identificar oportunidades de trabalho voluntário

Módulo 3

Gerenciamento do Programa
Planejar a área de Coordenação de Voluntários
Administrar o Ciclo de Gerenciamento de Voluntários


-Admissão, Incorporação, Manutenção

Os três módulos são desenvolvidos no curso presencial, de forma dinâmica, utilizando grupos de discussão, trabalho em grupo, apresentações dos alunos e atividades buscam o contato com a realidade vivida pelos participantes. Como apoio didático, tínhamos as ferramentas de gestão, com as quais os trabalhos eram desenvolvidos, tendo como base prática, uma entidade fictícia chamada Casa da Trilha.

Conseqüentemente, o curso deveria satisfazer as seguintes premissas; a base teórica deveria estar adaptada à metodologia a ser desenvolvida no curso on-line, as ferramentas de gestão, também deveriam ser trabalhadas pelos alunos tendo a entidade fictícia, Casa da Trilha, disponível para consulta. Finalmente, sem deixar de considerar que o curso não deveria se fechar nele mesmo e sim, dar condições para sua aplicabilidade e para o aprendizado continuado, por meio das possibilidades do World Wide Web.

O “design educacional” do Curso de Gerenciamento de Voluntários on-line

Utilizando a plataforma do Blackboard, distribuímos os três módulos em 8 unidades aula:

Módulo 1

Pré-Requisitos para Implementação de um Programa de voluntariado

1. Conhecer o voluntário atual

2. Retratar a Organização Social

3. Destacar um coordenador de voluntários

- Preparar a organização social

Módulo 2

Diagnóstico

4. Identificar oportunidades de trabalho voluntário

5. Identificar oportunidades de trabalho voluntário

Módulo 3

Gerenciamento do Programa

6. Planejar a área de Coordenação de Voluntários

7. Planejar a área de Coordenação de Voluntários

- Admissão

8. Administrar o Ciclo de Gerenciamento de Voluntários

- Incorporação

- Manutenção

As unidades aula são disponibilizadas a cada semana e nelas estão contidos os conceitos teóricos, ferramentas de gestão e atividades utilizando as ferramentas.

O texto corrido, apresentado no livro Gerenciamento de Voluntários, foi adaptado para a linguagem técnica para diminuir seu tamanho e incluir um menu e links de aprofundamento e explicações. Desta maneira os textos ficaram mais leves, sem perder o conteúdo e a visão do todo.

Para contemplar a participação dos alunos, desenvolvemos atividades que seriam apresentadas no link “Communication” do Blackboard para cada unidade aula.

As atividades estão centradas no uso das ferramentas de gestão disponíveis em cada aula e como material de trabalho, ficam disponíveis as informações da Casa da Trilha.

A opção de utilizar o link “Communication”, se deve ao fato desta ferramenta do Blackboard possibilitar a todos os demais alunos que vejam as respostas dos colegas, assim como criar condições de interação entre eles. Os alunos apresentam suas atividades e ao mesmo tempo podem interferir nas respostas dos colegas, contribuindo para um melhor resultado de aprendizagem do grupo. Esta ferramenta possibilita também, e principalmente, que o professor possa dar o feedback ao aluno do trabalho apresentado, criando suporte para a construção colaborativa do conhecimento e um melhor relacionamento aluno/professor.

Desta forma, conseguimos um resultado positivo relacionado à participação dos alunos. O resultado acaba sendo diferente, dependendo da turma, implicando em diferentes formas de interferência do professor, como facilitador, estimulando a participação de todos.

Outra técnica que foi desenvolvida para a aplicabilidade, interiorização dos conceitos e utilização das ferramentas de gestão, é a apresentação da entidade fictícia “Casa da Trilha”. No curso presencial ela é apresentada aos alunos com o objetivo de unificar os dados para o desenvolvimento dos trabalhos, pois foi constatado que existia uma diferença grande entre os alunos, no que se refere às diferentes organizações as quais pertenciam e o nível de complexidade de cada uma delas.

Como solução para o curso on-line e preservando os objetivos da técnica, criamos praticamente um site da “Casa da Trilha”. Desta forma, a qualquer momento, o aluno pode acessar as informações da organização fictícia e desenvolver as atividades propostas em cada unidade aula.

Como resultado desta técnica, de criar um site com informações básicas, percebemos que os alunos que já têm experiência com organizações mais estruturadas, aproveitam para desenvolver trabalhos mais elaborados; já os que têm experiência com organizações menores, ou mesmo com trabalhos sociais desenvolvidos por grupos, sem uma estrutura de gestão mais complexa, agregam conhecimentos em relação à gestão de suas organizações.

Finalmente, precisávamos desenvolver a possibilidade do aluno aprofundar seu conhecimento e dar condições da sua continuidade de aprendizado. Estes dois aspectos estão extremamente relacionados, assim como os conceitos de competência. A profundidade do conhecimento do aluno está relacionado ao ponto de partida, ou seja, seu conhecimento anterior. É a partir deste ponto, que é diferente para cada aluno, que criamos condições para que o aluno escolha onde deseja chegar. Acredito que esta é uma das grandes virtudes dos cursos on-line “abertos”, ou seja, conectados com a World Wide Web. Enfim, o curso deve funcionar como uma “porta de entrada” para o conhecimento disponível e atualizado constantemente na rede mundial.

Para desenvolver esta atividade, utilizamos o link “Course Documents”. São atualizados constantemente links relacionados ao conteúdo que está sendo estudado, solicitamos a contribuição dos alunos nos materiais e os estimulamos durante o desenvolvimento do curso a pesquisarem o material disponível.

Por se tratar de um curso de extensão, a avaliação está baseada na participação de cada aluno. O objetivo é agregar valor às instituições sociais por meio de ferramentas de gestão, permitindo uma reflexão sobre o conteúdo trabalhado e como conseqüência, a construção do conhecimento.

Enfim, o foco dos resultados está voltado para a responsabilidade na aprendizagem do aluno, na habilidade reflexiva e não de memória Como conseqüência prioriza, como forma de avaliação, a sua participação e não um nível específico de conhecimento apreendido, visto que, cada aluno vem de uma realidade diferente.

Por outro lado, desenvolvemos um questionário de avaliação do curso em si, para assim, podermos montar estatisticamente, quais foram, as dificuldades, facilidades e observações dos alunos para dar continuidade ao Design Educacional. Considerando que não se trata de um projeto acabado, mas sim de um processo de construção permanente.

Considerações finais

Quando pensamos em desenvolvimento sustentável, fica inerente que o princípio que norteia o conceito, transformar sem destruir, também deve fazer parte dos princípios do desenvolvimento do Design Educacional e não na tecnologia em si.

Se considerarmos a definição de Campos et. al. (1998 p. 15),

“O processo de Design Educacional é o ciclo de atividades que, apoiado em uma teoria de aprendizagem, define os objetivos educacionais, as informações que constarão do produto e o modelo de avaliação. A seleção da melhor solução para o modelo é um problema que envolve princípios sócios-culturais do ”projetista”, fatores externos impostos pelo ambiente e habilidades do aprendiz”.

Podemos concluir que, para a criação de um Design Educacional que contribua para o desenvolvimento sustentável, os princípios sócio-culturais do projetista têm que estar de acordo com os mesmos princípios. No caso apresentado, os princípios da filosofia construtivista são apropriados.

A filosofia construtivista, afirma que o conhecimento é "construído" na prática e não "adquirido" passivamente, enfatiza a conscientização, a responsabilidade do próprio aluno para sua aprendizagem e a importância de incorporar a realidade, de cada aluno, dos grupos e da sociedade, no processo educacional. Estes mesmos princípios são os que norteiam o Desenvolvimento Sustentável, o contato com a realidade, a visão sistêmica e a responsabilidade sobre as conseqüências dos seus atos. As organizações do Terceiro Setor, objeto deste estudo, também contemplam estes mesmos princípios. Enfim, estes três elementos juntos potencializam a possibilidade de transformação do mundo em que vivemos em uma sociedade sustentável.

Bibliografia

ALMEIDA, MEB. Formando professores para atuar em ambientes de aprendizagem interativos e colaborativos. PUC-SP: jul, 2000. http://www.nave.pucsp.br/arquivos.htm [Acesso em set, 2003].

________. Educação a distância e tecnologia: contribuições dos ambientes virtuais de aprendizado. XXIII Congresso da Sociedade Brasileira de Computação. Campinas, UNICAMP, 02 a 08 ago, 2003.

BARANAUKAS, MCC. Uma abordagem construcionista ao design de um ambiente para programação em lógica. In: VALENTE, JA (org.). Computadores e conhecimento: repensando a Educação. Campinas-SP: Gráfica Central da UNICAMP, 1993.

Paas, Leslie. DESIGN EDUCACIONAL, artigo publicado no portal do LED (http://www.led.br) em Dezembro, 2001.

Campos, F.C.A; da Rocha, A.R.C.; de Campos, G.H.B. Design Instrucional e Construtivismo: Em Busca de Modelos para o Desenvolvimento de Software. IV Congresso RIBIE, Brasilia. 1998. http://www.niee.ufrgs.br/ribie98/TRABALHOS/250M.PDF